2013.
“Eu achei que teria mais tempo, essa é a verdade. Muitos meses antes de acontecer, quis fazer um retrato de meus avós. Liguei para minha avó e perguntei se ela topava, mas não marquei uma data e deixei pra combinar quando tivesse mais tempo livre. Ela me ligou algumas vezes perguntando, mas eu achei que teria mais tempo.
Um dia, ela passou mal e foi internada. Não me preocupei, afinal ela já havia se despedido no leito de morte quase dez anos antes, numa situação bem mais complicada e grave, e voltou. Dessa vez, não houve tempo. Não houve leito de morte, um último pedido, uma despedida. Ela não podia mais esperar. E o retrato que eu não fiz ficou pra sempre não feito.
Sei que parece uma bobagem, porque não é como se faltassem retratos dela pra aquecer meu coração com sua memória. Mas o retrato que eu não fiz me machuca mais do que consigo descrever. Eu achei que teria mais tempo. A gente sempre acha.
Já são quase cinco meses sem ela. E nesses quase cinco meses, tranquei minha dor no peito pra não enlouquecer. Não pensei nela, não pensei no bendito retrato. Ainda é difícil visitar sua casa, o peso de sua ausência me sufoca e ainda dói ver cada pedacinho da casa marcado com a falta dela e do retrato que eu não fiz.
Decidi, então, que precisava fazer o retrato, ainda que fosse com o pouquinho que sobrou dela. E muito pouco sobrou, é verdade, mas sua memória permanece nos detalhes. No rádio que ela ouvia toda manhã, no seu jeito de apoiar os pratos no escorredor, no canarinho, seu irmão em sina, cujo canto — ou lamento — conversava com sua solidão. Nos porta-retratos com fotos de minhas irmãs e eu, surrupiadas de nós, porque só ela sabia dar valor a esses registros. O papel toalha cortado em terços para economizar, sua agenda de telefone tão antiga, com tantos nomes que já se foram e seu ipê roxo, de que tinha tanto orgulho. Rastros de sua presença, pistas de quem ela foi. Seu amor e cuidado por nós são evocados pela janela de sua cozinha, de onde ela costumava nos observar esperando o ônibus do outro lado da rua, e de onde fazia mímicas para perguntar se a gente tinha casaco e guarda-chuva.
Cada detalhe tem um pedacinho dela que me conforta com sua lembrança, mas que ainda me machuca com sua falta. Este ensaio não substitui o retrato que eu não fiz. É apenas uma tentativa de me perdoar, porque eu achei que teria mais tempo. E é meu jeito de pensar nela, de sentir saudade, de deixar doer sua ausência na esperança de que um dia a dor seja vencida pela ternura de sua memória. É uma tentativa de seguir em frente.
Pode ir, vó Inha. E não se esqueça do casaco e do guarda-chuva.”

















