
Sonhar-com
a dimensão comunicacional dos sonhos de mulheres na matrescência
Esta pesquisa, de autoria da artista e pesquisadora Stephanie Boaventura, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UFMG, sob orientação da Profª Drª Sônia Caldas Pessoa, busca questionar se é possível pensar uma dimensão comunicacional dos sonhos por meio da partilha de experiências oníricas de mulheres vivenciando os estágios iniciais da matrescência ou do tornar-se mãe (ou seja, da gestação e puerpério, compreendido, para fins desta pesquisa, como os primeiros 40 dias pós-parto). Buscamos compreender se e em que medida os relatos de sonhos de mulheres vivenciando o ciclo gravídico-puerperal permitem vislumbrar um processo de comunicação que contribua para nutrir uma noção relacional de sujeito, pensar a fratura humano/natureza e nossos vínculos com os circuitos da vida. A pesquisa conta com bolsa de fomento da Fapemig.
Nas duas gestações que vivi, tive sonhos que anunciaram para mim processos que estavam ocorrendo em meu corpo. Em 2019, estava grávida pela primeira vez, mas infelizmente meu embrião não se desenvolveu além da sexta semana. Engravidei novamente alguns meses depois e na primeira ultra descobrimos que a nova gestação era gemelar. Estava bastante apreensiva, por já ter passado por uma perda e comecei a ter alguns sonhos estranhos com dois bebês, em que um deles não estava muito bem. Em um desses sonhos, estava com uma criancinha já maior e um outro bebê aparecia no colo da minha mãe, que faleceu antes da minha primeira gestação. Em outro, umas semanas depois, eu estava caminhando pelo meu bairro carregando dois espelhos, quando cheguei ao meu destino, percebi que só um dos espelhos estava comigo. Fiz o caminho de volta desesperada, procurando o espelho perdido e o encontrei quebrado na rua. Quando acordei, contei para o meu marido e já começamos a nos preparar. Na ultrassonografia do fim do primeiro trimestre, descobrimos que um dos embriões desapareceu em meu corpo. Felizmente, o outro embrião seguiu forte e meu filho nasceu com muita saúde, hoje sou mãe de um garotinho incrível.
Também vivi uma experiência onírica potente durante o pós-parto, em que um sonho me despertou a tempo de perceber que meu bebê estava em perigo de sufocamento. Depois que meu menino nasceu, quando ele era recém-nascido, como a maioria das mamães, vivi uma forte privação de sono. Era o auge da pandemia, estávamos isolados e não podíamos ter nenhuma ajuda. Até por volta dos sete meses, meu menino só dormia no meu colo ― sei que não é a opção segura para o sono do bebê, mas ele realmente não durava vinte minutos em nenhuma superfície e eu já estava enlouquecendo de cansaço. Então depois de muito tentar fazer da forma correta, decidi dormir com ele no colo semi-sentada, formando uma barreira de travesseiros e almofadas para dar apoio aos meus braços e com barreiras do lado da cama para prevenir quedas. E isso funcionava para mim, porque qualquer suspiro diferente dele me fazia despertar, mas pelo menos chegava a dormir. Certa noite, meu companheiro e pai do meu filho quis ficar com o bebê para que eu pudesse dormir de verdade, deitada. Neguei por muito tempo, por saber que esse tipo de arranjo de sono é ainda menos seguro com o pai, mas cedi e formamos as mesmas barreiras em volta dele. Naquela noite, sonhei com minha mãe, falecida há mais de um ano, me dizendo, brava, para cuidar direito do meu filho e acordei assustada. Quando olhei para o lado, vi que meu bebê, ainda muito novinho e sem controle cervical, havia rolado dos braços do pai e estava com o rostinho virado em cima de uma almofada. Provavelmente havia acabado de acontecer e consegui pegá-lo a tempo, nada aconteceu e ele ficou bem.
Essas experiências me levaram a querer estudar mais a fundo os relatos de sonhos de mulheres vivendo essas fases da vida. Além disso, o estudo de perspectivas tradicionais sobre os sonhos me fez questionar se seria possível identificar uma dimensão de comunicação nas nossas imagens noturnas. Já vi relatos soltos por aí de sonhos “premonitórios” em que as mamães viram perfeitamente os rostinhos de seus bebês, ou descobriram alguma coisa que não sabiam, ou tiveram experiências oníricas difíceis de explicar, mas decidi tentar coletar esses relatos de forma sistematizada.
As pesquisadoras responsáveis pelo estudo são vinculadas ao Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), na linha de pesquisa Comunicação, Territorialidades e Vulnerabilidades. Esta pesquisa foi avaliada e aprovada pelo Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich), na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e pelo Comitê de Ética da UFMG, obtendo aprovação para prosseguir por atender aos princípios éticos estabelecidos nas diretrizes e normas para as pesquisas envolvendo seres humanos no país.
Em caso de dúvidas gerais ou sobre a pesquisa, curiosidade ou para relatar algum problema, entre em contato com a doutoranda Stephanie Boaventura pelo e-mail sonharcomasemente@gmail.com.