





A mãe é um animal fraturado, partido ao meio, que experimenta o limiar entre o mamífero e o humano, entre o indivíduo e a coletividade planetária, entre o que está vivo, o que não está ainda e o que não está mais. Fissura encarnada, a mãe é formada na fronteira entre mundos e suas rachaduras são perigosas como os sulcos na crosta terrestre.
Esse desdobramento produz um vínculo poderoso, com força para torcer o tempo e constitui uma trincheira que o império dos homens precisa vencer para sangrar o planeta. Domando a mãe, doma-se os filhos. Então o homem impõe à mãe uma vida fragmentada, convence a mãe a romper com o bicho, a se apequenar no altar do sagrado, a esconder as fraturas que são suas e acolher em si uma cisão falsa, feita no bisturi, entre ela e o desenrolar da vida.
Antes de ser mãe, quis mudar o mundo, mas entendi muita coisa pela metade. Exilada na margem, vi que tudo começa pelo começo. A mãe — ou melhor, a fissura — é o ponto de encontro das forças que produzem o fim com as forças que são capazes de impedi-lo. A mãe, na ideia e no corpo, é onde colapsa o velho, é a barricada capaz de evitar o avanço da desolação. Para dar à luz o amanhã, é preciso costurar a ferida cirúrgica instituída pela civilização dos homens e permitir o rasgo.