Como um diário visual da experiência de gestar durante uma pandemia, esta proposta de registro do cotidiano surgiu em meio às tantas privações que o isolamento nos impõe em um momento tão singular de nossas vidas. Resgatamos um exercício ao qual já nos dedicamos uma outra vez, em um outro começo no curso da nossa trajetória juntos: a documentação do nosso primeiro ano morando sob o mesmo teto, vivendo como uma família e tentando construir um ninho amoroso para nós.
Naquele tempo, o objetivo daquele projeto era, principalmente, me forçar a praticar a fotografia, treinando meu olhar para buscar beleza nas coisas mais banais da vida. Mas teve como efeito colateral a construção de um arquivo dos afetos ordinários¹ que permeavam o dia a dia de duas pessoas crescendo em relação — arquivo ao qual retornamos sempre com muita ternura. Entendo que esses exercícios talvez não façam mais tanto sentido com a difusão da funcionalidade de histórias — que ainda não existia lá em 2013, durante O Primeiro Ano — em todas as redes sociais, mas por algum motivo, de algum modo que não sabemos explicar, ainda nos parece um esforço diferente.
A quarentena, que veio tão pouco tempo depois de um ciclo de perdas que implodiu nossas estruturas, nos impede de viver a gravidez socialmente. As pessoas que mais amamos perdem as primeiras etapas da existência do nosso primeiro filho e nós perdemos as alegrias de compartilhar com elas esse processo tão arrebatador. Temos que vivenciar sozinhos as transformações em meu corpo, o progresso dos movimentos do bebê, o preparo emocional do ninho para receber um novo membro, nossa lenta metamorfose em pais. E isso enquanto tentamos, como todo mundo, construir alguma nova normalidade dentro das possibilidades de uma sociedade em colapso, que se recusa a admitir o esgotamento dos caminhos escolhidos, que desvia o olhar dos corpos que deixa pelo chão e se encaminha voluntariamente para o precipício.
Mas o futuro insiste em vir: teimosa que é a vida, não obstante, ela segue. Parece loucura, eu sei, mas ela segue, embolada nisso tudo, alheia aos nossos perrengues enquanto dança sua valsa incessante com a morte. E sentimos que esse futuro, que se faz presente aos poucos, nos detalhes, merece ser celebrado, mesmo em meio ao caos. E sua vinda, tão cheia de promessas, precisa ser registrada — nem que seja, simplesmente, para evitar que nos esqueçamos, na dureza da passagem do tempo, de que também e apesar de tudo havia beleza e júbilo e esperança em nossos dias.
O título para este registro, que é o mesmo nome que demos para o canal de YouTube onde muito ocasionalmente publicamos algumas músicas (nossas ou covers), vem de uma brincadeira que surgiu na nossa primeira grande viagem juntos, quando visitamos Ushuaia, na Argentina. Fica nessa cidade, que é a mais ao sul do mundo, o farol Les Éclaireurs, que recebe o apelido de Farol do Fim do Mundo. Para nós, aquela visita, que aconteceu poucos meses antes de juntarmos nossas vidas em um mesmo abrigo, passou a representar um marco e uma meta na nossa parceria: seguiríamos juntos ainda que no fim do mundo, até e além dele. Agora, aquele compromisso que firmamos há tantos anos faz ainda mais sentido.
Apesar de publicadas a partir de abril, algumas das primeiras imagens foram tomadas em janeiro, antes da quarentena começar por aqui. E seguiremos atualizando esta página mais ou menos mensalmente, até quando sentirmos vontade de parar.
¹ Ver STEWART, Kathleen. Ordinary Affects. Durhan, NC: Duke University Press, 2007.
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