









Os muitos fios da minha pesquisa se entrelaçam na trama de uma tentativa de me render ao Mistério, de me ligar à teia da vida, de aceitar o invisível que descansa escondido na poeira dos dias. Tenho trabalhado com uma espécie de mapeamento do território que a autora Isadora Krieger chama de Continente Materno. Esse mapeamento se dá a partir da pergunta, adaptada de Tim Ingold: onde termina uma mãe e começa o resto do mundo?
Entre 2019 e 2020, vivi as experiências simétricas de perder a mãe e fazer um filho. Em quarentena, tentei me refazer a partir do luto enquanto uma mãe-sem-mãe. Mas é um erro pensar-se sem mãe. A maternidade, como nos lembra Emanuele Coccia, é a forma de migração da vida neste nosso planeta e eu definitivamente tenho mãe, uma mãe que agora vive no passado, mas que existe e está presente, mesmo na morte. Basta torcer nossa história na espiral para vê-la entre nós, contínua, seu corpo dissolvido no mundo, seu rosto surgindo nas rugas do meu, seu sopro de vida alcançando mais longe nos passos do meu filho, como na dispersão das sementes.
Desde então vivo nesse entre. Entre a mãe e o filho, entre o passado e o futuro, entre a ciência e arte, entre a pesquisa e a criação. A maternidade se tornou um ponto de foco não só pela grandeza emocional da experiência de se desdobrar em outro vivente, mas porque agora, podendo atualizar a filha, penso que a mãe é uma barreira para o modo de pensar pela separação que estrutura o Império dos Homens. Ser gestado/a é uma experiência profunda e inevitável de vínculo, de ligação, de partilha. Partilhar o sangue e ser feito nessa troca, a mãe e o/a filho/a, em um fio que nos conecta ao primeiro humano, o primeiro primata, o primeiro mamífero, o primeiro vertebrado, na direção da terra, da mãe que pariu tudo. Elo cósmico.
Os coaches podem exaltar o sujeito autônomo, o self-made man (ou woman), mas a mãe está lá para atestar que todos fomos feitos no centro de uma outra. O poder masculino ainda precisa se dobrar à inevitabilidade da mãe. Não há bisturi nem mamadeira, nem diploma de doutor nem lata da nestle que possa evitar a mãe. Pode-se domar a mãe, sim, pode-se diminuir, subjugar, torturar e exaurir a mãe, pode-se instituir a separação como procedimento, mas não dá para escapar do útero, do ventre, do umbigo, do centro. É uma trincheira que os vampiros do planeta ainda não podem cruzar. O seguimento da espiral precisa de mães. É por isso que para qualquer mulher que tenha dúvidas em relação a ter filhos ou não, serei a primeira a dizer: Não tenha. Ter filhos no Império dos Homens é devastador. Mas também direi: Ou tenha. Ter filhos no Império dos Homens é devastador.