
Já faz um tempo que ensaio para publicar este relato. Escrevi boa parte dele em 2019, poucos meses depois de ter passado pela perda gestacional, quando ainda tentava engravidar novamente. Mas não consegui seguir adiante com a ideia de publicá-lo no blog. Quis esperar estar grávida para lidar com esse assunto, não sei exatamente a razão. Depois de grávida, quis aguardar um estágio mais avançado, mais seguro, da gestação. Fui deixando para depois. Agora estou aqui, com meu filho dormindo nos meus braços e digitando com apenas uma mão, tentando encarar o que quer que seja que estava me impedindo de escrever sobre isso, porque sinto que preciso revisitar a experiência do aborto no processo de elaborar a experiência avassaladora que foi parir.
Em 2019, engravidei pela primeira vez na vida, voluntariamente. Ter filhos já estava nos planos há algum tempo e começamos a tentar logo que terminei o mestrado. Conseguimos na terceira tentativa, a primeira em que realmente houve um empenho. Aquela gravidez nos trouxe imensa alegria em um momento muito difícil da vida. Dois meses depois, entretanto, descobrimos, no segundo ultrassom, que o embrião não havia se desenvolvido e, alguns dias depois, meu corpo expulsou todo o conteúdo do meu ventre.
Algumas partes deste texto foram escritas poucas semanas depois do ocorrido, outras, meses e meses depois e outras, ainda, agora, perto da data em que será publicado. Espero que meu relato sirva para ajudar mulheres que venham a passar pela mesma situação, ou apenas para colaborar com a sensibilização a respeito de um evento tão comum para o corpo feminino, mas que ainda é vivenciado com tanto segredo. Quando passei por isso, foi o relato de outra mulher ― um dos poucos que encontrei que eram tão detalhados como costumam ser os relatos de parto ― que me ajudou a aceitar, a assimilar a dor e a me preparar para viver aquela perda em presença integral, aberta a tentar compreender o que quer que ela tivesse a me ensinar.
Os primeiros sinais
Quando a médica me autorizou aguardar, por pelo menos mais duas semanas, o aborto acontecer espontaneamente, muita coisa passou pela minha cabeça. Eu não sabia o que aconteceria com meu corpo, como seria esse processo. Conhecia relatos de mulheres que passaram pelo aborto voluntário induzido por medicamento, mas mesmo esses, por se tratar de uma prática ilegal, não eram muito detalhados. Haveria diferença, sendo a expulsão do embrião uma necessidade do meu corpo e não um processo induzido?
Engravidamos no meio de junho, na semana do dia dos namorados, quase exatamente um mês após a morte da minha mãe. Eu nunca havia feito um teste de farmácia. Cheguei aos 32 anos, o dobro da idade que mamãe tinha quando se descobriu grávida de mim, sem jamais ter passado por um susto sequer. E não por mérito meu. Já vacilei muito, esqueci de tomar ou vomitei a pílula muitas vezes, na época em que acreditava satisfazer a necessidade de terapia com vodca. Mas nunca engravidei nesses vacilos e até cheguei a pensar que eu não conseguiria engravidar.
Aconteceu na terceira tentativa, concentrando os esforços na semana fértil de acordo com a tabelinha e com o sinal doloroso de ovulação. Eu sentia que havia algo diferente com meu corpo. Alguns dias antes da data em que minha menstruação deveria vir, comecei a sentir cólicas leves e de resolução espontânea, pensei que não tínhamos conseguido. Até ali, eu não sabia que gravidez também dá cólica. Não sabia muita coisa. Semanas antes, ainda no hospital, perguntei para minha mãe quais os primeiros sintomas que ela teve nas vezes em que esteve grávida e ela me disse que sentia muito sono. Eu sempre sinto muito sono, então esse não foi um sinal fácil de verificar. Mas eu sentia alguma coisa: algo parecia diferente. Hoje, já entendo que o corpo tem seus saberes e os comunica à parte de si mesmo que, em sua soberba e autoproclamada autoridade, chama de razão.
Quando cheguei no 28º dia do ciclo, meu companheiro, André, me trouxe um teste da farmácia e umas cervejas para caso o resultado fosse negativo. No WhatsApp, minhas irmãs esperavam ansiosas. Lê a bula, prepara, três minutos: duas linhas. A segunda estava fraquinha, mas definitivamente havia duas linhas. Fiquei o restante da noite incrédula, sem saber distinguir a alegria do medo e da tristeza por minha mãe não estar mais aqui para ver isso acontecer. Como a segunda linha do teste foi muito fraquinha, não me permiti ficar feliz, quis esperar o exame de sangue. No dia seguinte, fiz o Beta HCG e passei o dia apertando F5 na página do laboratório. Quando apareceu que o teste estava concluído, meu coração disparou. Positivo, definitivamente positivo. Parecia que, enfim, coisas boas começariam a acontecer naquele ano.
Aí veio a espera interminável de mais algumas semanas para o primeiro ultrassom. Eu tinha muito medo de ter uma gestação ectópica, sentia algumas dores fortes no baixo ventre que me deixavam apavorada. Dores normais, de estiramento dos ligamentos uterinos, mas eu não sabia que eram normais. Já tinha um pedido de ultrassom endovaginal para investigar se estava tudo bem com meu organismo e, ansiosinha da Estrela que eu era, decidi marcar o exame antes da primeira consulta do pré-natal, com apenas seis semanas. A médica, muito atenciosa, nos avisou que talvez não fosse possível visualizar o embrião, porque estava muito cedo. Mas estava lá, no lugar certo, ainda sem batimentos pela idade gestacional ― o que eu já esperava e não me preocupou, embora tivesse uma esperança irracional de que meu embriãozinho estivesse adiantado em seu desenvolvimento. Quando ela ligou o aparelho, até ouvimos batimentos fortes e acelerados, mas eram os meus, do meu coração emocionado que, ali, batia na boca, no ventre, no corpo inteiro. Parecia tudo certo, com exceção de um pequeno hematoma subcoriônico que me exigiria repouso e abstinência sexual. A maioria deles é absorvida pelo corpo, me disseram todos os profissionais de saúde a quem consultei. Naquele dia, contamos para algumas pessoas e pouco depois iniciamos o pré-natal. Minha saúde estava boa e estávamos felizes.
O corpo sabe antes
Semana vai, semana vem, estava em casa quando tive uma sensação que conhecia bem, mas que não sentia há quase 70 dias: corri para o banheiro e vi um pequeno sangramento. Muito pequeno, quase nada. Fomos para o hospital e, porque era sexta-feira à noite, não conseguimos fazer uma ultrassonografia. Fui examinada e o colo do útero estava fechado. Desde o primeiro exame, eu vinha tomando progesterona continuamente por causa do hematoma. Naquela semana, a cartela acabou e só me lembrei de comprar outra dois dias depois: foi quando sangrei. Voltei a tomar religiosamente e passamos o fim de semana super ansiosos para poder, finalmente, repetir o ultrassom na segunda-feira.
Sangrei mais um pouco no domingo à noite e sentia que não estava tudo bem. Entre um exame e outro, meus seios pararam de doer, desincharam e meus mamilos voltaram ao normal, não estavam mais salientes como ficaram durante o tempo em que estive grávida. Algo me dizia que não estava tudo bem, mas ali eu não sabia distinguir medo de intuição. Eu não me sentia mais grávida, como senti mesmo antes de saber. No relato de aborto espontâneo que me ajudou a me preparar, a mulher disse que, de repente, passou a sentir que caminhava sozinha novamente e é uma descrição muito precisa de como meu corpo me comunicou o fim da gravidez. Ainda na sala de espera para o ultrassom, eu havia dito a André para se preparar para o pior, ainda que eu quisesse muito acreditar que estava tudo bem. Portanto, quando a médica muito delicadamente anunciou que o embrião não teve a evolução esperada entre o primeiro exame e aquele, não foi uma surpresa para mim. André chorou, vesti minha roupa sentindo uma pressão enorme na garganta e perguntei se poderia buscar o laudo em um outro dia, pois não queria esperar em uma sala com várias famílias grávidas. Voltamos para casa arrasados, choramos juntos por todo o trajeto. Avisamos algumas pessoas que já sabiam e contamos para outras que não sabiam de nada até então. Naquele dia, quando descobrimos que nossa sementinha não vingou, me senti vencida.
Consegui um horário de emergência com a médica que vinha me acompanhando dois dias depois. Ela foi bastante amável, me examinou, disse que o colo ainda estava fechado, cheirou o sangue para avaliar se parecia ter sinal de infecção e disse que estava tudo bem. Como eu já estava sangrando um pouco, ela disse que eu poderia aguardar mais duas semanas antes de recorrer à curetagem, mas também disse que, assim que o sangramento começasse efetivamente, eu deveria procurar um pronto atendimento obstétrico para fazer o procedimento. Perguntei se havia risco de ter uma hemorragia em casa, ela me assegurou que não: disse que muitas mulheres acreditam ter hemorragia no abortamento, porque se assustam com a quantidade de sangue. Eu não queria intervenção médica. Como a gestação não evoluiu muito, o embrião era bem pequeno, eu sentia-sabia que tudo correria bem e que nós precisávamos passar pela despedida.
Aprender a gestar

Decidi esperar e passar pelo processo em casa, deixar a natureza seguir seu curso. Havia sido tomada por uma confiança no meu corpo que até ali eu desconhecia ― eu sabia que tudo aconteceria tranquilamente. Munida de relatos que encontrei na internet, tomei chá de canela em pau e colocamos a canela para ferver na água do café. No dia seguinte àquela consulta, na quinta-feira, comecei a sentir as dores. Havia acordado na madrugada com uma forte dor na barriga, mas esperei passar abraçada no meu companheiro e consegui dormir. Tomei banho por volta de 11h e, assim que saí do chuveiro, comecei a sentir uma cólica muito forte, como jamais havia sentido. Não só forte, era diferente. Um dos relatos que li descrevia a sensação como se o ventre estivesse seco e era exatamente o que eu sentia. A dor irradiava por todo o abdômen e era como se tudo por dentro estivesse repuxando, como quando se come banana verde ou caju. E com muita, muita dor. Ainda fiquei deitada um tempo, sem conseguir me vestir, até que me lembrei da minha avó dizendo que pé quente ajuda a amenizar cólica. Mandei mensagem para André, que estava trabalhando e veio correndo para casa. No caminho, ele comprou uma bolsa de água quente e, assim que chegou, preparou a bolsa e me fez um chá de camomila. Ficou ao meu lado o tempo todo, angustiado com a dor que eu sentia.
Deitada no sofá, eu tentava respirar fundo, contorcida de dor e pedi, mentalmente, a ajuda de todas as mulheres da minha família que já partiram. Acho que senti dor por cerca de cinco horas. Não quis tomar nenhum remédio, porque não queria interferir nos movimentos que meu útero precisava fazer. Mas a bolsa de água quente aliviou bastante ― consegui, pelo menos, mudar de posição e esticar as pernas. De repente, senti o sangramento descer de uma vez. Corri para o banheiro, porque sabia que mesmo o absorvente noturno que já estava usando preventivamente não conseguiria segurar tanto sangue. Agachada sobre o vaso sanitário, sangrei muito, muito mesmo, por cerca de um minuto. Saíram algumas estruturas da gravidez e a dor cessou imediatamente, como mágica. Assim que meu corpo expulsou boa parte do conteúdo do meu útero, parou de doer. Fiquei com a pressão um pouco baixa, mas muito aliviada. Passou, acabou. André chorou de tristeza e de alívio, por ver que eu não estava mais sentindo dor. Me senti muito muito forte depois: pronto, doeu, mas passou. Passamos.
Três dias depois, no domingo, depois de uma leve pontada no baixo ventre, senti algo escorrer. Corri para o banheiro e saiu uma estrutura de uns 5cm, um tecido de aspecto rugoso e meio arroxeado, sem sangue. No dia seguinte, uma ultrassonografia mostrou que meu útero ainda estava maior que o normal, mas o aborto estava completo, não havia mais nada. Ainda fiquei sangrando por um bom tempo, cerca de duas ou três semanas, um sangramento normal, como menstruação, sem dor. Meu ciclo foi retomado 26 dias depois do dia do aborto, sem nenhuma alteração, com exceção dos seios, que nos ciclos seguintes não doeram mais no período pré-menstrual. Menstruar nos meses seguintes doeu muito, mas emocionalmente, apenas.
(o trecho a seguir foi escrito em abril de 2022, quase três anos após a minha primeira gravidez. as partes acima foram escritas entre 2019 e final de 2020.)
Logo no ciclo seguinte, voltamos a tentar engravidar e conseguimos três longos meses depois. Não pensei que eu passaria por isso, mas naquele intervalo até o próximo palitinho positivo, parecia que todo mundo à nossa volta estava grávido. Cada notícia de uma nova gravidez e cada menstruação que chegava doía em mim de uma forma que eu não esperava que fosse doer. Todo o processo de tentativas e o desenrolar da gestação vale um outro relato (que espero conseguir produzir e publicar em menos de três anos), mas adianto que a gravidez seguinte, a que trouxe para as nossas vidas a pessoinha mais importante do universo inteiro, também envolveu uma perda. Tivemos uma gestação que começou gemelar, mas um dos embriões desapareceu dentro de mim, com seu coraçãozinho que chegou a bater e todas as suas estruturas. No espaço de um semestre, tivemos duas perdas que nos arrasaram em um momento em que já estávamos de joelhos, destroçados pela morte de minha mãe.
Mas entendo que tudo que aconteceu foi como um ensaio, uma experiência que ensinou meu corpo a gestar e uma vivência de entrega aos fluxos da vida completamente nova para uma pessoa tão controladora como sempre fui. Essa entrega me ajudou, ainda, a sobreviver ao luto em que já estava imersa. Deixar ir nossa primeira semente foi como um pequeno parto, que eu quis viver de forma natural e presente. E perder nosso pequeno gêmeo me ensinou a acessar a sabedoria do meu corpo e aceitar outras possibilidades de comunicação, habilidades que foram importantes durante toda a gestação ― e que esqueci na hora do parto, mas isso tudo é assunto para outro papo. Publico este relato agora com a esperança de que seja encontrado por mulheres que precisem e que as possa servir como preparo ou alento, assim como me ajudou um relato que li no blog de uma desconhecida quando precisei.
Um comentário em “Relato de um aborto espontâneo”
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