fissuras

Imagem do trabalho “Além do Fim do Mundo”

A maternidade te quebra, te estilhaça, te deixa aberta, em pedaços. Foi assim que comecei a entender a transformação pela qual passaria antes mesmo de acontecer. Da natureza à cultura — da mãe-gambá, que precisa encontrar alimento e escapar de predadores com seus filhotes nas costas, à mãe-gente, que exerce seu maternar pelas beiradas de um sistema que depende de transformá-la em presa — a maternidade te vulnerabiliza. A mãe conhece e habita as fissuras: dos mamilos, da pele, da barriga, das horas, da identidade, da realidade. O mundo da mãe é fragmentado em rachaduras profundas que a todo tempo desabam, engolindo tudo. Ou, talvez, a mãe seja simplesmente uma criatura que, em sua invisibilidade, torna-se capaz de ver e percorrer as rachaduras invisíveis que compõem o mundo. O terror do mundo.

A mãe habita a fissura do corpo, que precisa rasgar-se em dois para permitir à cria existir em sua própria carne. Tive que aprender a navegar essa sensação de estar, constante e permanentemente, com as vísceras expostas. Afinal, foi uma parte de mim que se desprendeu para experimentar a vida com autonomia, como um outro completo. Ainda me pego desconcertada com o fato de que, agora, existo com as entranhas do lado de fora. Meu corpo, expandido e dilacerado, ganhou novas superfícies, mas também novos pontos de vulnerabilidade, novas possibilidades de dores. Seu queixo, ao tocar o chão enquanto ele aprende a se mover pelo mundo, dói em mim, sua angústia aperta meu peito. Mas é também verdade que me inunda de alegria seu sorriso ao descobrir cada novo movimento que seus músculos podem produzir.

E eu, que já me pensava quebrada muito antes de sua chegada, fiquei surpresa ao perceber como essa nova condição existencial me fortalece. Para me fazer capaz de caminhar ao lado do meu filho, tem sido necessário identificar, dignificar e tratar as fissuras no meu passado, e me fazer porto depois de uma vida inteira sendo tempestade em alto mar. A maternidade me exige trilhar um caminho de mudança — hay que endurecerse — mas não se trata de simplesmente virar uma chave, é um processo. Se alguma chave foi virada em mim, foi apenas no sentido de destrancar portas e gavetas há muito fechadas. Remexer o velho, tirar a poeira dos medos embaixo da cama, reviver algumas feridas, para poder olhar para frente e ver mais longe, poder sentir o agora com mais presença. Sobreviver entre tantas lacunas demanda alguma solidez. Doer, dói sim, como o crescer dos ossos, que já não me acontece mais. Agora, no entanto, cresço em outras direções: cresço para o futuro, no sentido das suas tantas possibilidades. Cresço para dentro, para o fundo, no rumo da terra e até corro o risco de, quem sabe, chegar a ficar maior que os tantos tão antigos medos.

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