miudezas

(2017)

A vida toda tentei ser pequena, silenciosa, invisível. Buscando não incomodar, pedi licença por cruzar o caminho de outras pessoas, pedi permissão para existir. Eu canto baixo, falo pouco, me encolho no fundo da sala e me escondo em corredores vazios. Tem um certo tipo de solidão que gosto de cultivar como um escudo, um feitiço de proteção. Há um medo cortante de deixar entrar o outro, de oferecer às vistas as feridas mal cicatrizadas.

Essa orientação para a miudeza corre, como imposição, no meu sangue de mulher, mas é particularmente forte em minha linhagem. A constrição é um traço notável de todos os ventres que gestaram a linha do tempo que culminou em minha vida. Quando me veio meu primeiro sangue, minha avó me abraçou com um sorriso triste, que na época entendi como nostalgia. Hoje sei que ela tentava me receber com boas-vindas em um mundo que é horrível para esse tipo de bicho que sangra. Não era nostalgia, era medo. Nós, mulheres, somos forjadas no terror, na promessa da violência.

Guardo uma admiração assombrada por pessoas que encaram a vida com o peito aberto, que se entregam ao risco mortal de se esvaziar em lágrimas, que enfrentam o mundo com a valentia de se permitir quebrar. Já perdi as contas dos livros e discos que me repetiram que viver é muito perigoso, mas todos contam histórias de bravura. “Carece de ter coragem”: palavras que Riobaldo me contou quando eu perdia as forças no hospital e que marquei na pele para não esquecer que a vida é travessia.

Escrevo porque preciso, porque é o que consigo fazer. Se pudesse, gritava. Não tenho pretensão de beleza. Escrevo como quem tira o coração da máquina e pendura no varal; se soubesse, modelava esse coração em argila e queimava no forno. Escrevo porque o dinheiro não sobra para a terapia e porque minhas dores não se acomodaram ainda na materialidade de outras artes. Minha voz tímida não se faz ouvida, minha indisciplina me impediu de treinar os dedos para acompanhar os ouvidos. Escrevo porque a palavra é fria: posso oferecer minhas entranhas ao outro com a indiferença de quem espera o mesmo ônibus todas as manhãs. Escrevo porque a escrita sempre me veio como cura.

Não deixa essa cara amarrada e essa melancolia te enganar, sou movida por paixões como qualquer pessoa. Corre um rio largo nas minhas profundezas, manso na superfície e perigoso: arrasta, entre destroços de outros naufrágios, quem ousa nele mergulhar. E este semblante saturnino é como o espinho da rosa, não é muito, mas é minha única linha de defesa.

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