(2008)
Me arrumo para sair. Visto minha melhor roupa, passo maquiagem nos olhos. Por alguns instantes até consigo me sentir bem, bonita. Pra que, pra quem? Olho para a porta e ela continua fechada. Olho para mim e continuo sozinha. A noite está clara. Pela janela vejo a rua deserta, sinto o vento frio — algumas outras janelas também observam a noite, testemunham minha solidão. Procuro o espelho novamente, acendo um cigarro: em vão. Você não virá esta noite, como não veio em todas as outras, eu sei. Aqueles acordes tristes continuam soando em meus ouvidos, muito depois que a música terminou: “se você é tão bonita, por que então está por sua conta esta noite?”. Eu sei, eu sei de tudo isso há tempos e tempos, desde sempre.
Talvez eu saia para uma volta — por essa hora só sobraram os bêbados, é com eles que me entendo, é quando consigo me ver sem desespero. Há muito tempo eu não ouvia os passos da bailarina no corredor escuro, há muito tempo não via seu vulto rodopiar com leveza e escárnio pelo meu espelho trincado. “Onde você esteve?”, penso com alguma melancolia. Os inseguros traços da maquiagem se dissolvem lentamente na tristeza que me umedece os olhos, borrando meu rosto, desfazendo sem pudor minha esperança. Mas continuo a esperar. O céu revela aos poucos, ainda tímido, algumas estrelas silenciosas. O silêncio, o meu silêncio — só consigo pensar que o tempo das estrelas cadentes já passou para mim, e o rastro de sua travessia não é suficiente para iluminar o meu sono.
Me vejo mais só do que nunca diante dessa ausência, e ela é pesada, densa — preenche o quarto como uma névoa fria, turva meus olhos, me enjoa, me embriaga: revela apenas um caminho sombrio, o caminho que me leva irremediavelmente para dentro de mim, para verdades amargas das quais me escondi em sonhos, para dentro da minha vida que se impõe sobre minha vontade, soberana. Não consigo fugir, não importa o que eu faça.
Já não sobrou muito da máscara que com tanto cuidado vesti para cobrir minhas cicatrizes — aquelas que ninguém viu, que ninguém quer ver. Penso que já faz muitos dias que não bebo, me surpreendo: há muitos anos eu não me confrontava com a lucidez por tanto tempo. “Se eu pudesse ser quem você queria o tempo todo…”, canta meu coração vazio para a noite. Mais uma vez não vejo outra saída senão me esconder no orgulho e fingir que não vi a ferida que o último passo da bailarina abriu em meu peito. Com algum esforço levanto a cabeça e ensaio a alegria, porque o dia vai chegar e eu também tenho que trabalhar.
Por um segundo apenas penso no passado, me lembro menina, me vejo só, embalada por canções que só eu ouvia, e me pergunto confusa como foi que cheguei aqui. Sei bem que não há respostas, mas insisto nessa dúvida seca que o tempo lançou sem piedade contra minha inocência. Não faz sentido. A porta continua fechada.
Deito-me ainda com a roupa que escolhi para sair, para me sentir desejável, para esperar por você. Adormeço já sem lágrimas nos olhos, e apenas as notas distantes de uma guitarra persistem delicadamente na escuridão: “Eu sei que acabou”.