
(2016)
A mulher que eu sou frequentemente me fala. Eu a ouço, mas nem sempre compreendo, porque não tenho fluência em seu idioma de sensações. É na lógica fria das palavras que me entendo, então, às vezes, nossa imprecisa comunicação carece da tradução de aparelhos oraculares. Essa mulher que me fala de dentro, das vísceras, que é, ao mesmo tempo, velha e criança, me socorre quando me perco em meus próprios desvios. Mergulhada em mim, arde no frio e congela no calor, sem qualquer vínculo decisivo com a superfície. Eu não a vejo, mas a reconheço em minha história, como uma constante.
Essa mulher que me fala, também me olha, mas do avesso, do lado interno, e também de antes, do meu prólogo. Ela tem muitas vozes e todas elas são minhas. É a minha raiz, meus galhos e meus frutos. Me aborda na solidão dos trajetos conhecidos, me notifica no descanso, com imagens cheias de significados ocultos. Quando ouvida, é paciente. Peço-lhe: “não entendi, você pode repetir, por favor?” E ela repete duas, três, quantas vezes eu precisar. Mas em sua dignidade, não gosta de ser ignorada e tem um jeito de impor sua razão. Quando sua mensagem tem urgência, me crava um desespero nas entranhas que só sossega quando decifrado. Sua conexão é com a largura da vida, em todas as suas tramas, todos os seus braços — e ela sabe dos caminhos, é a própria travessia realizada em si mesma.
A mulher que habita meus ossos me falou que eu precisava vencer um determinado tipo de medo, criar coragens, ser mulher valente que emerge da casca modelada no terror. Me pediu que forjasse em meu corpo o atrevimento de abrir portas, para deixar sair de mim o que a angústia gesta, num exercício de fecundidade. E vai me dando dicas, deixando migalhas que indicam um caminho por onde tenho que voltar para me reconciliar com quem eu posso ser. Aquela história de que o tempo cura todas as feridas guarda um equívoco: o processo curativo não é só caminho para frente; é imperioso saber olhar para trás. E isso foi a mulher que eu sou quem me ensinou, nas poucas vezes em que fui capaz de desvendar seus signos.