a esposa do artista

(2016)

Comecei a escrever estas linhas numa cadeira de hospital. Há alguns meses, meu avô esteve internado em uma enfermaria e minhas irmãs, minhas tias e eu revezávamos o seu acompanhamento. Em certa noite em que não pude dormir, me peguei observando que, embora fossem os doentes, em sua maioria, homens, quase todos os acompanhantes de pacientes internados naquele andar eram mulheres. Mães, esposas, filhas, tias, sobrinhas, mulheres dedicadas a cuidar de quem precisa de cuidados. Imaginava quantas dessas mulheres, atravessando noites em claro em uma poltrona desconfortável, não estariam interrompendo projetos pessoais e profissionais para estar ali, engajadas com as necessidades urgentes do outro, abrindo mão do tempo de cultivar suas próprias potencialidades para exercer sua lida de mulher. Homens não renunciam a seus compromissos de trabalho, não interrompem seus projetos pessoais. O tempo do homem é o tempo do mundo.

Imagens não foram sempre meu vetor de expressão preferido. Tive certa inclinação para as línguas e os sons, e cantar era como que uma necessidade interna, era como chorar: uma forma de sentir dor para expurgar o sofrimento. O exercício da escrita sobre o mundo como me parece e sobre minhas experiências me acompanhou como um hábito desde o processo de alfabetização. No entanto, há algum tempo escrever deixou de ser uma urgência. Parei de carregar folhas e lápis na bolsa, parei de alimentar blogs, diários. Aprendi a ignorar a vontade de cantar. Depois de terminar a faculdade de artes, esqueci a sensação do pincel carregado de tinta na tela. Concentrei meus esforços em combater a insegurança de criar em apenas uma área, a da fotografia.

Tive um namorado que escrevia. Eu revisava seus textos porque era mais “cuidadosa” — não somos todas? — e ele me dizia que seríamos como Jorge Amado e Zélia Gattai: ele, o escritor famoso, e eu, sua esposa e revisora. Minha memória fraqueja em detalhes, acho que eu costumava rir dessa brincadeira. Mas quando comecei a escrever sobre isso, me ocorreu essa lembrança e fui pesquisar sobre Jorge e Zélia. Qual não foi minha surpresa e comoção quando descobri que tenho, em minha estante, um livro dela, presente que minha avó, minha maior incentivadora, me deu há quase dez anos. Zélia não foi a esposa de um gênio. Mas homens, como resultado de uma socialização que atrofia a capacidade de empatia, só enxergam seus iguais. Para eles, a Zélia, a mim, a todas nós, só é permitido existir em função de seus interesses.

Há alguns anos, fui abordada por uma professora para uma um tanto perturbadora conversa particular. Ela me disse que eu precisava me dedicar mais aos estudos e menos a meu namorado, porque se não o fizesse eu seria apenas a esposa do artista e nada mais teria se ele fosse embora. Em meio a um turbilhão de sentimentos e aquela irreverência característica dos anos tardios da adolescência, não entendi o recado e dei a mensagem por devaneio. Quando contei a outras pessoas, disseram que ela estava transferindo para mim uma vivência pessoal: foi abandonada! Mal-amada! Histérica! E a verdade é que talvez tenha sido a orientação mais lúcida e dolorosamente real que recebi naqueles quatro anos como estudante de arte. Quase que não importa o que nós, mulheres, façamos, é terrivelmente provável que não sejamos mais que as coadjuvantes na história de um homem. A eles, basta o interesse. Nós precisamos ser absolutamente fantásticas e contar com alguma sorte se ousarmos pisar no domínio masculino da criação.

É desnecessário trazer dados e números, basta propor um rápido exercício individual: quantas mulheres ou quantas obras de mulheres figuram em seus rankings pessoais de artistas ou trabalhos favoritos? Quantas mulheres da música ou grupos musicais com maioria feminina aparecem com frequência no seu registro de atividade em serviços de streaming? Há quantos livros escritos por mulheres em suas prateleiras? Quantos trabalhos de mulheres na lista de filmes vistos ou a ver? Há alguns meses uma revista publicou um artigo sobre onze artistas da música brasileira “que estão quebrando todas as regras de gênero” que provocou o meio feminista: não havia uma só mulher na lista. Mesmo ocupações estereotipadas como “femininas”, exercidas tradicionalmente por mulheres como práticas de sua natureza, sem remuneração ou prestígio, tornam-se profissões reconhecidas quando exercidas por homens. A palavra “gênio”, em português, terá flexão de gênero internética com @ ou x antes de ter flexão no feminino. O homem é a régua do mundo.

Não é nenhuma surpresa que em um mundo dominado e regulado pela masculinidade, os trabalhos de homens tenham maior alcance, mas não é só uma questão de visibilidade. Há uma ideia que li há algum tempo em uma rede social martelando minha cabeça: a qualidade é um valor construído por homens. Sendo homens brancos os detentores de poder em todas as esferas da existência humana, poder sobre o outro, poder sobre a história e as estruturas sociais, coube sempre a eles determinar o que é bom, o que deve ser consumido, o que deve ser enaltecido e lembrado. Lembro da crítica que recebi de um amigo quando mostrei a ele um blog que eu mantinha com textos e poemas: “é tudo pessoal demais”. No fim das contas, eles não estão interessados no que temos a dizer, a escrever, a cantar, a pintar, porque não nos veem. Nós somos as esposas dos artistas, as revisoras dos escritores, as cuidadoras que zelam pelas urgências de todos, coadjuvantes na história do mundo que somente eles podem contar. Para nós, romper com “regras do gênero” é falar em um mundo que nos quer caladas, é cantar onde nossa voz não é ouvida, é escrever mesmo que nossas palavras não interessem a ninguém, é pintar com as cores da resistência, é sobreviver a cada dia a uma domesticação implacável da nossa subjetividade e de nossos potenciais criativos. É preciso honrar todas as criadoras que resistiram e inauguraram novos caminhos para as próximas mulheres, e nos juntar a elas em sua coragem. Para forjar nosso silêncio, eles nos chamaram criatura, mas nós sabemos, do fundo de nossos ventres, nós sabemos da força que temos para ser tudo o que podemos ser.

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