(2010)
Arthur Bispo do Rosário, negro, sergipano, empregado em um casarão de família abastada, perdeu, em determinada noite, a capacidade de distinguir experiências reais das imaginárias. Já com quase 30 anos, foi internado e diagnosticado esquizofrênico-paranoide. Preso em delírios místicos, em ideias de grandeza, Bispo foi mais um refém de uma psiquiatria ignorante e cruel, ciência que ainda engatinhava em suas técnicas que, muitas vezes, acabavam por destruir qualquer traço de humanidade do doente. Passou mais de meio século, entre idas e vindas, num manicômio, escapou aos eletrochoques, à lobotomia, aos neurolépticos com terríveis efeitos colaterais. Era uma pessoa simples, e ganhou respeito dentro e fora da instituição.
Dentro de seu delírio durante anos a fio, Bispo produziu o que, mais tarde, seria considerado arte. Milhares de peças destinadas a inventariar o mundo para, após o fim dos tempos, tornar possível a construção de um mundo novo, onde não haveria doença mental, sofrimento ou depressão. Completamente alheio ao que acontecia além dos muros da instituição, aos novos movimentos artísticos, alheio, até mesmo, à noção de arte, Bispo estava construindo um mundo novo utilizando de métodos e ferramentas extremamente atuais. Sua intenção não era produzir objetos ou conhecimento artístico, mas seguir desígnios divinos, purificar-se pelo trabalho árduo e incansável e completar, por fim, a missão que lhe foi imputada por anjos na noite de dezembro em que sua mente foi libertada das amarras que separam todos os homens da loucura.
Após décadas de rotina institucional, de trabalho, de abusos e convivência com técnicas que massacravam os ânimos, o templo de Bispo do Rosário tornou-se público, e suas obras, criadas no meio do turbilhão alucinante da doença, foram consagradas no mundo como obras de vanguarda. Vanguarda que não poderia ser senão soprada por anjos aos ouvidos de Bispo, pois que ele não tinha contato com o que ocorria no mundo. Suas assemblages feitas de embalagens de produtos diversos, de itens de utilidades domésticas e sucatas foram comparadas com a pop art de Warhol. No entanto, as belas miniaturas do universo da apaixonante figura de Arthur Bispo do Rosário levantam questionamentos sobre a natureza do conhecimento artístico e uma quase inevitável relação com os saberes mobilizados pela loucura.
Principalmente após as últimas décadas, em que a noção de pesquisa em arte ganhou novos fundamentos, a ideia de intenção tem ganhado papel importante no processo artístico. Entretanto, ao longo da História, a arte já brincou e andou de mãos dadas diversas vezes com o delírio.
No começo do século XX, o Surrealismo, regido pelas frescas ideias de uma recém estabelecida psicanálise, e contaminado por um mundo em frangalhos, já apregoava o descrédito da realidade, a loucura como atitude crítica. Os surrealistas beberam em Freud, e fizeram uso de exercícios terapêuticos da psicanálise para atingir os níveis obscuros do inconsciente e liberar as amarras do aparelho psíquico. O uso da livre associação de ideias, da interpretação de sonhos, entre outras técnicas, buscava mergulhar em um mundo desconhecido e selvagem, e liberar desse claustro psíquico suas feras em forma de imagens. Sua arte deitava-se com a loucura — porém, tudo isso era feito de forma consciente, e a busca do desvario e do sonho tinha os pés bem presos ao chão.
É desnecessário citar Van Gogh. Pintor que morreu miserável, perdido em sua própria mente desequilibrada, e hoje é consagrado como uma das mais importantes figuras da Arte Moderna. Um exemplo contemporâneo é o artista e fotógrafo espanhol David Nebreda. Diagnosticado com esquizofrenia aos 19 anos de idade, passou por clínicas psiquiatras diversas vezes na vida. Atualmente com mais de cinquenta anos, vive sozinho em um apartamento em Madri, isolado de qualquer contato com o mundo exterior. Fotógrafo autodidata, sua obra se constitui basicamente de auto-retratos grotescos. Suas fotos são carregadas de violência, sangue, excrementos. Além do isolamento, Nebreda se impõe sacrifícios — é vegetariano desde os vinte anos de idade, pratica abstinência sexual e se submete a jejuns extremos. Seu trabalho, pouco conhecido na Espanha, foi promovido na França por críticos e galeristas importantes. O trabalho de Nebreda, tal como o de Arthur Bispo do Rosario, está completamente impregnado pelo poder e ferocidade da loucura e da doença. Há, contudo, uma diferença crucial entre os dois casos — David Nebreda é, a despeito de sua moléstia, licenciado em Belas Artes. Por trás da marca nítida da violência mental, há intenção em seu trabalho. Intenção artística, intenção de produzir objetos estéticos. Tal qual um Salvador Dalí, que conscientemente buscava suas imagens inconscientes, há intenção de produzir conhecimento artístico. O mesmo não ocorre na produção de Bispo.
A discussão não se dá em termos do nível de conhecimento prévio sobre arte que Bispo tinha. Isso já não faz mais sentido em nosso momento histórico. Tampouco se trata de um questionamento elitizado sobre legitimidade artística. Pretende-se aqui apenas propor uma reflexão sobre os saberes mobilizados pela arte e os saberes mobilizados pela loucura, tantas vezes gêmeos e tantas outras antagônicos, e sobre as arbitrariedades de um meio que detém o poder de diferenciá-los. Uma reflexão sobre propósitos. Bispo não criou seu mundo para expor em galerias, ele não fazia e nem pretendia fazer parte desse meio. Sua intenção, ancorada em seu delírio, era totalmente diversa — era grandiosa.
Ele não só era alheio às esferas da arte mas, mais importante que qualquer coisa, ele próprio não se propôs ao fazer artístico. Não queria produzir imagens e objetos artísticos ou conhecimento estético — Bispo não tinha tempo a perder com tais coisas menores. Seu trabalho era de ordem divina: ele deveria representar o mundo e construir um mundo novo. Ele estava cumprindo sua missão ordenada por anjos, imposta pelos artifícios da esquizofrenia. Por maior congruência que seu trabalho tivesse com a arte que era produzida naquela época, por mais vanguardista que fossem suas assemblages, por possível que fosse a aproximação com o experimentalismo da década de 80, com a Pop Art e a contracultura do consumismo exagerado, Arthur Bispo do Rosário não estava interessado em nada disso. Seu trabalho não foi criado para ser apresentado aos mortais na Bienal de Veneza, seu propósito era muito mais nobre: Bispo estava, das profundezas de sua mente desenfreada, construindo e reconstruindo o mundo, através de sua história confusa e esquecida, para se apresentar a Deus e à Virgem Maria, sua mãe, no dia do Juízo Final, no fim dos tempos.
Referências
ABC da Saúde. Desenvolvido por ABC da Saúde Informações Médicas Ltda, 2001.Portal direcionado ao público em geral que tem por objetivo a informação, divulgação e educação sobre temas de saúde com 690 artigos escritos exclusivamente por mais de 40 especialistas. Disponível em: <http://www.abcdasaude.com.br/artigo.php?189>. Acesso: 14 jun. 2010
HIDALGO, Luciana. Arthur Bispo do Rosário, o Senhor do Labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1996