Por que começar um blog em 2019?

Tenho tentado, nos últimos anos, bolar estratégias para me forçar a escrever. O problema é que, com o mesmo ou mais afinco, tenho inventado também artimanhas para escapar desses planos. Guardo em gavetas digitais incontáveis documentos com ideias para textos, questões que gostaria de elaborar melhor, parágrafos soltos, incompletos, que se perdem e se confundem sem jamais alcançar outros olhares, outras leituras. Acontece que já fui muito vocal na internet a respeito de temas que me interessam, mas fui sucumbindo mais e mais à paralisia do medo. E não é, propriamente, um medo de desagradar, de receber críticas, mas de falar besteira, de ser ou me sentir uma fraude, de cair em minhas próprias contradições.

Contrariando o já superado mito do idoso sábio, é bem verdade que a passagem do tempo não garante nenhuma iluminação. Mas se você prestar atenção, o tempo tem um superpoder de oferecer uma outra perspectiva a partir da qual olhar para fora e para dentro. E é aí que a coisa fica bagunçada, porque você corre o risco de se perceber incongruente: de repente, você se pega discordando de algo que já defendeu mostrando os dentes, vira oposição de si mesma. E essa impermanência, essa impossibilidade de ser sempre a mesma pessoa, pode até ser uma das coisas mais bonitas do universo ― que é o fato de que vida é movimento ― mas também pode ser dureza de engolir. E, como disse o ressentido ex-presidente, “verba volant, scripta manent”. A palavra escrita deixa rastros desses processo contínuo de se colocar contra a parede. Fica mais difícil varrer para debaixo do tapete e fingir que nunca aconteceu.

Para ilustrar o que estou dizendo, deixe-me contar como tem sido meu amadurecimento no campo do pensamento político. Evidentemente, não nasci feminista. Tampouco tenho sido a mesma feminista desde que passei a adotar o termo para nomear um aspecto de quem sou, lá por volta de 2011. Um exemplo bobo, mas que ajuda a elucidar a questão, é o debate se homens podem ou não ser feministas. Quando toda a leitura que eu tinha do assunto vinha do blog da Lola, eu jurava de pés juntos ― ostentando uma heterossexualidade mais forçada que a luta anticorrupção no Brasil ― que não tinha nada mais sexy no mundo que um homem feminista. Uns anos depois, já em contato com o feminismo radical por meio das redes sociais digitais, me vi discordando de um texto da própria Lola sobre o assunto. Não, homens não podem ser feministas, porque o opressor não tem interesse real em desmantelar um sistema do qual ele se beneficia.

Entretanto, após passar os últimos dois anos estudando feminismos diversos, entendo que homens não apenas podem, como devem ser feministas. É claro, o separatismo estratégico é fundamental: nós, mulheres, precisamos aprender a fazer política sem a intervenção de homens. Mas deve ser estratégico, justamente, não a luta em si mesma. Se não concebo nem as categorias homem e mulher como atributos de identidade, ainda que identidades sejam construídas com base nos significados e marcadores dessas categorias, muito menos o feminismo pode ser reduzido a esses termos. O feminismo é um projeto político de transformação radical das relações entre os sexos. Assim, a menos que nosso intento seja o extermínio do sexo masculino ― e, nem eu, nem as feministas com quem dialogo legitimamos tal desatino ― precisamos que mais e mais pessoas defendam essa transformação. Pretendo entrar com mais profundidade nessa questão em outro momento, aqui cabe apenas ressaltar que meu posicionamento nesse debate já deu muitas voltas.      

Claro, não há nada de mau em mudar. Mudar tem ligação com aprender, é parte inevitável de estar vivo e de se permitir o contato enriquecedor com o outro. A bem da verdade, exige mais esforço se manter empacado num mesmo ponto do que seguir o fluxo inerente à vida. Mas para quem é exigente demais consigo mesma, esse movimento pode ser intimidante. E, mais ainda, para quem tem a sorte de estar cercada de gente amorosa disposta a ouvir o que se tem a dizer. Se pensar bem, isso te coloca uma responsabilidade e tanto. Será que eu sei mesmo o que estou dizendo? Como posso ter certeza de que em alguns meses ou anos, depois de novas leituras, novos contatos e conversas, terei essa mesma posição que agora defendo? Daí a pressão desse compromisso foi virando dúvida, a dúvida virou medo e o medo virou silêncio. E as ideias foram acumulando nas gavetas, esperando o momento ideal ― quando eu teria finalmente um repertório intelectual sólido e uma escrita bonita e segura o suficiente ― para germinar. Mas esse momento não chegou. Não vai chegar.

Então este blog nasce como um desafio. De mim para mim, um “pedala, Robinho” na minha coragem, porque não vai ter momento ideal, não existe esse “o suficiente”. Mas quem sabe o tantinho que já aprendi seja bastante para dar um caldo. É, também, um jeito de me forçar a enxergar beleza nisso que me traz tanto medo, que é não ter certeza, e a abrir mão de um controle que sempre gostei de fingir que tenho. Me dar a ver ao outro sem estar pronta, ser processo. No fim das contas, escrever sempre foi, para mim, um importante exercício terapêutico, de elaboração de ideias e afetos. Se desejo, agora, o olhar do outro, é porque estou convencida de que essa troca é substância de crescimento, de maturação. Pronta pronta mesmo, só estarei quando acabar meu tempo por aqui ― e talvez nem aí, porque aquilo que a gente deixa para trás se transforma nas mãos de quem fica. No entanto, agora sei que, quanto mais eu for tocada por aquilo que me escapa, aquilo não é eu, mais eu ganho, mais aprendo.

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